Pular para o conteúdo principal

Postagens

Hoje acordei com pouca existência. Quase transparente alma de biju. Antes de desaparecer, abri a porta pro mundo dos gatos. Comi deitada a manga da cabeceira. Tapei a cara e o travesseiro. Quem sabe transparecer mais. Tirei a dúvida e o travesseiro. O mundo continuava lá. Ele continuava lá. Tomei banho, escovei dente. Não passei desodorante, nem hidratante. Não escolhi roupa, não coloquei calcinha e dessa vez enxuguei o pé. Insisti. Não me vesti e não pendurei a toalha. Rolei na cama. Espreguicei minha mudez. Ele se esgueirou por cima do lençol e perguntou. Eu disse que sim. Hoje acordei pra existência.
a ética da arte não existe ainda porque tá sendo inventada todos os dias. depois de ontem e antes de amanhã sugiro comer azeitonas de vênus: morangos, adicione açúcar e algumas pitadas de pimenta calabresa. sim, eu já comi. à noite, pré-estréia do festival de filmes de gente que não pensa. evite passar ao largo. sirva-se e invente.
Sabe aquele gominho que todo mundo tem nas mãos próximo ao dedão ou polegar opositor? Aquele que permite aos seres humanos o movimento de pinça? Mas eu tô falando do gominho. O pequeno monte de matéria que faz uma colina em sua palma. É músculo de criança. Porque criança cai. Por que criança cai? Por ausência de medo ou de conhecimento mesmo, mas cai. E levanta e tenta de novo o que quer que esteja tentando. Criança é uma criatura que cai. Adulto esquece como é cair e muitas vezes como é tentar. Criança também gosta de perguntar. Por que criança gosta de perguntar? Talvez porque não tenha as respostas? Elas estão prontas? As respostas ou as crianças?
Eu coleciono você no plural.
"Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser." Clarice Lispector *** Preciso ficar um pouco louca além Você já viu a morte em azul? É a vida no fundo do mar.
Grito a palavra. A exposta e eu. Não tenho voz. Não uma que se ouça. Esteconjuntodeletrasefrasesquesaemencadeadas daminhabocacompõeumidiomaestranho. Incoerente o ser e o humano. Corro desesperada porque perdi meu silêncio. Logo ele. Saio. No mundo há zunidos incessantes, maestria de blablablas. nonononononononononononononononononononomínimo Não pode haver espaços vazios. A ordem é que sejam preenchidos. Sempre. A ausência de sons é perigosa nos dias de hoje. Precisamos fabricar conceitos, opiniões, casos, descrições, análises, gritos, música, barulho, sussurros, uivos, verbos, adjetivos. Não podemos parar. Atenção. Do contrário, corremos o risco de ser compreendidos. O vazio é muito vazio e não há o que por nele. Saiu no jornal de hoje. Trombo com uma multidão de palavras, coitadas. Desabitadas, claustrofóbicas, amontoadas, exploradas. Quero fazer a distinção! Encontrei algum silêncio que ainda não sei se é o meu. Encontrei também algumas palavras. São suas? Espaço ...
Vertigo Poema ilustrado concreto desarticulado pêndulo tonto louco trôpego torto anuncia rouco quer explodir. da Anna Azevedo A Anna é talentosa. Além disso, é cineasta, poetisa, guerreira destemida, inventora de histórias sensacionais, mulher do Zé José e grande amiga.
Roupa passadinha, pia limpinha Acordo a manhã Desterro Vontade de ir ao banheiro Literatura de bidê Um livro de redingote Um jornal que desfia Rosários Um buquê de tulipas carmim Botar o lixo pra fora Subverter as regras da escada Fabricar planos Inverter o desejo Passa a página que eu quero sair Tem música no meu ouvido A curva deslizou Saltou com o paralelepípedo Porrou no poste da história Corpos destroçados na cama Braços e pernas empilhados Restos desmantelados Tempestade tropical Pós brisa de verão antigo Olho pro teto e não vejo as estrelas Elas estão debaixo do lençol Fui fazer café pra você.
O excesso confunde, mas também esclarece. Eu preciso ver os contrastes.
A ausência é o avesso da presença. A certeza de estar em outro lugar. Percepção de percurso. Deslocamento de corpos. A impossibilidade de ocupar todos os espaços. A afirmação do vazio. Temporário. Do preenchimento. Também temporário. Migração dos desejos. A ocupação das estepes. Movimento. Ausência é presença. Travestida de lugar.
Não mate a fome É ela que nos alimenta
Na perspectiva dele.
Que eu me permita fugir de qualquer coisa que se intitule vanguarda. Acrobatas futurísticos saltando sobre si mesmos em direção ao passado. Soldadinhos vigilantes do messiânico senhor “Novo”. Manufatura incansável de datas. Mesmice criativa escondida atrás de velhos hábitos. Ah, sim. Vanguarda. Do atraso. Servos obedientes das nomenclaturas vigentes. Casta de condenados à linha do tempo. Não há nada a frente. Mas dê um passo e você não está mais no mesmo lugar. Carcereiros do pensamento vivo, pulsante, que se projeta eterno e único. Intérpretes desajeitados da singularidade. Poetas da sua própria obsolescência. O carro novo, assim que sai da loja, perde 20% do seu valor de mercado. Existem camadas de histórias entranhadas na sua pele. Arte é. E só há o hoje pra criar.
"Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo". Jean Baudrillard Afinal de contas, tudo não desapareceu. Que pena que você não está mais aqui.
Essa indignação datada e produzida pela mídia me deixa enojada. A merda já tá acontecendo há muito tempo em muitos lugares, em todos os bairros, em todas as zonas, em todas as horas, com todas as pessoas, mas o bom é a merda nova. Só ela é capaz de atingir. Não uso a palavra indignada porque ficou momentaneamente gasta pelo intrépido trabalho das empresas de notícia que não se cansam de produzir vítimas e algozes. Mas elas também vendem a redenção. Atenção para as próximas ofertas. Você não pode perder. Essas empresas e seus empregados estão realmente se esforçando em produzir sentimentos catárticos pra vida correr mais coerente no pós tragédia. Mas tem tragédia todo dia e a maioria não é notícia. Há muita gente atirando pedras e apontando culpados. Essas pessoas só olham pro próprio umbigo quando assim lhes convêm. Falam incessantemente em direitos e nunca devem nada, a ninguém. Não é assim que nos ensinaram? É muito fácil brincar de herói e bandido. As mesmas vozes que condenam, desv...
Eu nem sei mais do que gosto. Loura? Morena? Strogonoff? Hum bonitinha essa. Tem a cara meio de cavala, mas. Tenho que me controlar na frente da Creuza. Essa magrinha é gostosa. Eu comi aquela merda ontem só pra agradar. Na verdade eu não escolho nada na vida. Escolhem pra mim. E já faz tempo. Sou muito babaca mesmo. Não devia ceder tanto. Neguinho acostuma. É por isso que eu olho. Tenho direito. Bom dia. Faz tempo pracaralho. Ih caralho. Que horas são? Oito e trinta e cinco. Puta merda. Aquela nota que não emiti ontem, o vagabundo do César vai me esperar pra fazer. Aposto. Tô de saco cheio daquele escritório. Opa, desculpa. Foi mal. Não sabe andar na rua, não anda. Oduvaldo com certeza vai cobrar antes de eu chegar. Filho da puta. Não dá pra confiar em ninguém. Sou muito babaca mesmo. Merda. Puta que pariu. Hoje tá foda. Essa porra dessa calça que já aperta meu saco tá esbarrando no chão. Vou pedir pra empregada fazer. Não fode, tô pagando salário. Devia ter comprado aquela bonitona d...
Esse é pro manoel que cria formigas do barro abre as portas pras palavras sorri junto com as orelhas e pensa nomes nas coisas. Esse é pra fazer 90 camadas de infância tirar a razão da cabeça mais noventa camadas desobstruir o olho pescar idéias enricar a mente. Nada tem lugar. Só o que damos.
Eram oito da noite e, a caminho da casa de uma amiga, nos detemos num sinal vermelho. O sinal demorou mais que o costume e permitiu com isso, que olhássemos ao redor. Logo a nossa frente uma academia de ginástica, três andares, toda envidraçada - feito essas televisões de cachorro que se encontra em padarias -, cheia de esteiras e máquinas para o exercício dos músculos humanos. O sinal demorou mais um pouco e permitiu que pensássemos. - O ser humano teve que inventar máquinas pra poder andar. - É… e a nossa falta de tempo tá toda concentrada aí dentro. *** Mais tarde, na casa da amiga, uma notícia: A UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba) demitiu, de uma só vez, cerca de 138 professores, entre eles o irmão da amiga. No universo da instituição eles correspondem a todos aqueles que tinham titularidade. Esses indivíduos eram os responsáveis pelos programas de pesquisa, ensino e extensão da UNIMEP que agora estão interrompidos pela falta de docentes habilitados para tal. Motivo: int...
Hoje o asfalto me roubou as forças. Tentei virar do avesso, mas a esta hora da tarde não foi possível. Amanhã tento de novo com canudinho.