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"Relaxar é uma coisa na qual não sou muito bom." Dave Brubeck Take Five (1961)
Acordei com uma estranha e ela era uma sensação. De que algo diferente tinha acontecido durante a noite, mas não sabia exatamente o que. Eu sonhei? Não lembro. Tudo muito vago, até que zapt, desliza na mente uma breve lembrança. Acordo sobressaltada. Gritos. Que horas são? Tô sonhando? Gritos de novo. Que porra é essa? Vozes, palavrões, risos. Jogo de futebol? Claro, como não percebi antes. Tudo esclarecido. Tentar dormir de novo. Vórtex. Pedaços esparsos da memória diurna giram freneticamente. Futebol porra nenhuma. Era noite de paredão do Big Brother! Um amigo até tinha me chamado a atenção pro fato, mas aquilo me soou quase como: olha, tô fazendo um estudo e descobri que a formiga Cleo pássa hoje, do lado esquerdo da calçada, bem na hora do seu jantar. Um fenômeno. OK amigo, entendo. Mas o fato é que eu realmente não alcancei a importância do aviso do meu amigo. Segundo ele, era uma força que devia ser vista. Não sem o devido cuidado. Ela, a comunicação de massa, em todo seu esple...
Meu codinome é Dráuzio. Uso esse nome nas horas vagas, geralmente quando tô tentando ser. O mais engraçado é que não fui eu quem quis nem quem escolheu esse codinome. Na verdade ele me foi dado ou talvez imposto em circunstâncias totalmente inesperadas. Certo dia, entre amigos, após o trabalho, a caminho de um chopp, um telefone toca. “Oi amor, tudo bem? Aqui tudo bem também, acabamos a reunião agorinha mesmo e vamos comer uma pizza. Eu, Thiago, Maurício e Dráuzio. Tá, quando chegar em casa te ligo. Um beijo, te amo.” O fato é que o único que não estava lá era Dráuzio e eu não fui citada na lista do amigo, o que então significava que Dráuzio era eu. O carro ficou em silêncio e o grupo imerso na dúvida entre zoar o amigo ou fingir que ninguém tinha percebido o estranho detalhe. Aquele amigo não combinava com aquele texto, não parecia ele. É então que, neste exato interstício temporal, algo acontece, um vácuo, uma possibilidade escondida nas franjas da isenção. Bem, se eu não sou eu, eu ...
gosto dos silêncios na verdade preciso deles pequenos intervalos a carne é viva e tudo me atravessa nunca soube construir cercas pode entrar, a casa é sua entram coisas intensas, lindas profusão mas às vezes entram outras coisas aí dói não importa prefiro a porteira aberta permite mais descobertas não enferruja as artérias barulhos também fazem doer tem uma coisa estranha que acontece hoje pessoas falam sem parar, sem ter o que dizer como se o silêncio pudesse subitamente revelar logo ele que não fala mas entendo, porque ele releva adoro a música, amo palavras, cultivo sons mas preciso do silêncio acessível, meu amigo conversa comigo e me faz entender digerir, comer.

Às cartas e aos achados ou as várias infâncias

A vida me deu uma folga e estou aqui de volta. Eu e Teo acabamos de pegar nosso novo passaporte e meu trabalho pra Fundação está adiantado. Os outros que esperem. Lá na cidade passamos por um lugar que merece entrar na coleção dos preferidos. É o Paladino, você conhece? O Teo descobriu nas pesquisas de locação pro "Amigo da Onça" e me levou lá quando fomos entregar os documentos pro tal passaporte. Acho que já deu pra perceber que gosto de coisas antigas. É lindo lá. Remete a um Rio que quase não existe mais. Temos um amigo que diz que esta cidade deveria ter sido tombada lá pelos idos de 1950. Eu concordo. Seria mais bonita, com mais espaço, mais tempo. Eu adoro andar descobrindo novas paisagens. Tô pra ler "A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro" do Rubem Fonseca, por indicação do Teo que disse que por causa deste meu gosto eu deveria ler este conto. Foi uma citação sim. Eu te Gogliei na época que enviei as fotos. Procurei por você na rede, já que é um ser cib...
Hoje acordei com pouca existência. Quase transparente alma de biju. Antes de desaparecer, abri a porta pro mundo dos gatos. Comi deitada a manga da cabeceira. Tapei a cara e o travesseiro. Quem sabe transparecer mais. Tirei a dúvida e o travesseiro. O mundo continuava lá. Ele continuava lá. Tomei banho, escovei dente. Não passei desodorante, nem hidratante. Não escolhi roupa, não coloquei calcinha e dessa vez enxuguei o pé. Insisti. Não me vesti e não pendurei a toalha. Rolei na cama. Espreguicei minha mudez. Ele se esgueirou por cima do lençol e perguntou. Eu disse que sim. Hoje acordei pra existência.
a ética da arte não existe ainda porque tá sendo inventada todos os dias. depois de ontem e antes de amanhã sugiro comer azeitonas de vênus: morangos, adicione açúcar e algumas pitadas de pimenta calabresa. sim, eu já comi. à noite, pré-estréia do festival de filmes de gente que não pensa. evite passar ao largo. sirva-se e invente.
Sabe aquele gominho que todo mundo tem nas mãos próximo ao dedão ou polegar opositor? Aquele que permite aos seres humanos o movimento de pinça? Mas eu tô falando do gominho. O pequeno monte de matéria que faz uma colina em sua palma. É músculo de criança. Porque criança cai. Por que criança cai? Por ausência de medo ou de conhecimento mesmo, mas cai. E levanta e tenta de novo o que quer que esteja tentando. Criança é uma criatura que cai. Adulto esquece como é cair e muitas vezes como é tentar. Criança também gosta de perguntar. Por que criança gosta de perguntar? Talvez porque não tenha as respostas? Elas estão prontas? As respostas ou as crianças?
Eu coleciono você no plural.
"Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser." Clarice Lispector *** Preciso ficar um pouco louca além Você já viu a morte em azul? É a vida no fundo do mar.
Grito a palavra. A exposta e eu. Não tenho voz. Não uma que se ouça. Esteconjuntodeletrasefrasesquesaemencadeadas daminhabocacompõeumidiomaestranho. Incoerente o ser e o humano. Corro desesperada porque perdi meu silêncio. Logo ele. Saio. No mundo há zunidos incessantes, maestria de blablablas. nonononononononononononononononononononomínimo Não pode haver espaços vazios. A ordem é que sejam preenchidos. Sempre. A ausência de sons é perigosa nos dias de hoje. Precisamos fabricar conceitos, opiniões, casos, descrições, análises, gritos, música, barulho, sussurros, uivos, verbos, adjetivos. Não podemos parar. Atenção. Do contrário, corremos o risco de ser compreendidos. O vazio é muito vazio e não há o que por nele. Saiu no jornal de hoje. Trombo com uma multidão de palavras, coitadas. Desabitadas, claustrofóbicas, amontoadas, exploradas. Quero fazer a distinção! Encontrei algum silêncio que ainda não sei se é o meu. Encontrei também algumas palavras. São suas? Espaço ...
Vertigo Poema ilustrado concreto desarticulado pêndulo tonto louco trôpego torto anuncia rouco quer explodir. da Anna Azevedo A Anna é talentosa. Além disso, é cineasta, poetisa, guerreira destemida, inventora de histórias sensacionais, mulher do Zé José e grande amiga.
Roupa passadinha, pia limpinha Acordo a manhã Desterro Vontade de ir ao banheiro Literatura de bidê Um livro de redingote Um jornal que desfia Rosários Um buquê de tulipas carmim Botar o lixo pra fora Subverter as regras da escada Fabricar planos Inverter o desejo Passa a página que eu quero sair Tem música no meu ouvido A curva deslizou Saltou com o paralelepípedo Porrou no poste da história Corpos destroçados na cama Braços e pernas empilhados Restos desmantelados Tempestade tropical Pós brisa de verão antigo Olho pro teto e não vejo as estrelas Elas estão debaixo do lençol Fui fazer café pra você.
O excesso confunde, mas também esclarece. Eu preciso ver os contrastes.
A ausência é o avesso da presença. A certeza de estar em outro lugar. Percepção de percurso. Deslocamento de corpos. A impossibilidade de ocupar todos os espaços. A afirmação do vazio. Temporário. Do preenchimento. Também temporário. Migração dos desejos. A ocupação das estepes. Movimento. Ausência é presença. Travestida de lugar.
Não mate a fome É ela que nos alimenta
Na perspectiva dele.
Que eu me permita fugir de qualquer coisa que se intitule vanguarda. Acrobatas futurísticos saltando sobre si mesmos em direção ao passado. Soldadinhos vigilantes do messiânico senhor “Novo”. Manufatura incansável de datas. Mesmice criativa escondida atrás de velhos hábitos. Ah, sim. Vanguarda. Do atraso. Servos obedientes das nomenclaturas vigentes. Casta de condenados à linha do tempo. Não há nada a frente. Mas dê um passo e você não está mais no mesmo lugar. Carcereiros do pensamento vivo, pulsante, que se projeta eterno e único. Intérpretes desajeitados da singularidade. Poetas da sua própria obsolescência. O carro novo, assim que sai da loja, perde 20% do seu valor de mercado. Existem camadas de histórias entranhadas na sua pele. Arte é. E só há o hoje pra criar.
"Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo". Jean Baudrillard Afinal de contas, tudo não desapareceu. Que pena que você não está mais aqui.