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escrever pra não morrer, escrever pra não surtar, escrever pra desviar a dor. atenção. escrever pra não ficar pregado no chão, feito uma lagartixa apavorada, daquelas que são tão ou mais corajosas que você. escrever pra balançar as estruturas, as escrituras os dogmas que te enfiam goela abaixo. a ponto de te desestruturar. e você não quer gritar! não quer vomitar! por que? tanta coisa pra dizer. tanta coisa, tanta coisa. tanta coisa que tem. que eu nem imagino, que eu lembro, que eu vi. sem saber onde colocar. se tudo tá contido dentro, entre você e o mundo é justamente o espaço que é preciso. pra escapar, achar, habitar. habite-se. repita, repita, repita você até o dia que você se convencer. que a diferença é. que é possível existir além de todas as perguntas. aqui. o coração bate antes que se tenha certeza.
e screver pra extraviar escrever pra não explodir explodir antes de escrever é preciso ser desfeito eu preciso ser desfeita eu preciso achar um motivo porque tudo o tempo todo te puxa te espanca te confronta te pede pelo amor de deus pra você ser infeliz sofre, filha sofre filha da puta gruda nesse seu alicerce escolhe um parede bem boa um tipo que te divide atormenta e bendiz sua maldita e estonteante segurança obedece a quem te ama come pra não mofar corre pra não murchar e você, bêbado de paixão intensidade perplexidade fica aí a expor essa pele quanta vergonha tentando em vão sentir nem que seja alguma coisa alguma outra coisa que te faça entender porque porque não há motivos que bastem basta que haja você *** às demandas atropelantes: vendam-se sem impostos ao governo geral do teu desgoverno descentralizado e absoluto absolutuamente nada resolutamente real avassaladora...
vocês verão
perder o controle
antes de agora, o que significa algum tipo de tempo atrás e a fronteira é sempre tênue, eu não tinha condição de gostar de jazz e me lembro disso com uma nitidez desconcertante. condição no sentido de que era completamente incompetente. e não me refiro aqui a algum tipo de competência contemporânea que te distingue do outro a ponto de atropelá-lo. falo de uma competência que te permite perceber, sentir, viver, escolher, entender. eu não sabia que era um texto, uma história, trocentas nuances, vidas e vozes. conversando, gritando, chorando, rindo, falando. o equilíbrio distante, a delicadeza e violência, arrebatamento, atravessar um linha entre dois pontos, mergulhar no maior dos abismos, a coragem de tentar. fazer. florescer. o mesmo fato que você vê, visto de dentro de outra pessoa. o fato que você não vê, visto de dentro de você, por outra pessoa. o outro fato que você vê, visto de dentro do outro em relação a você. que me vê do outro lado. contra a lei da gravidade, notas que flu...
ele acredita que o destino mais glorioso do homem é ficar imóvel, sentado no seu grande sofá ou grande poltrona, ou grande carro, ou grande lancha, ou grande casa enquanto manda o assistente providenciar, a secretária ligar, a empregada limpar, a mulher resolver. ele acredita e persegue, como um ideal, o prêmio, o fim, a forra, a conclusão, o futuro. quem não faz sucesso é fracassado e tudo o que quer é um fim de semana, um feriado, uma folga, um reconhecimento, uma compensação. sempre soube, sempre quis e se orgulha em dizer “sacrifiquei minha vida pessoal pra chegar onde cheguei e sei extamente o que estou fazendo. optei por isso”. porque o resto do tempo é tudo um grande sofrimento, uma grande tortura, uma puta e fudida azucrinação. teu colega é incompetente, tua estagiária, burra, teu chefe, arrogante, tua secretária, gostosa, tua mulher, chata. e você não tem a mínima idéia de como eles foram parar ali, ao teu lado, só tem certeza de como você chegou ali, acima deles. e de qu...
fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga III.
tinha o caráter forjado a tédio. já tinha sido artista, mas disso se lembrava muito pouco, tinha sido há muito tempo. algo que o lembrava a juventude e só. agora gostava mesmo era de ostentar seu cabelo branco a la rc e de se sentar atrás de sua grande mesa de mogno. o momento que mais saboreava era quando as pessoas entravam em sua sala e o viam naquela posição magnânima, soberana. passava dias inteiros esperando por eles e depois passava dias inteiros relembrando sua performance, os olhares, as reações previsíveis, os gestos inseguros da disfarçada sede de seduzir. o desejo sexual tinha sido substituído pelo desejo de poder, mas quanto a isso não se preocupava mais, tinha feito uma boa troca. o que lhe dava tesão mesmo era sucesso, mármore, whisky, puta, convite, vip, artista. tinha claramente passado pro outro lado e isso o agradava, o fazia sentir mais forte. olhava aqueles wannabes todos com um profundo desprezo, mas isso nunca ia admitir. ela sabia que podia se meter em encr...
um buraco no céu onde se pode escapar pra perto
fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga II.
cansei de perguntar pra que eu sirvo. a primeira coisa que te dizem é pra esquecer dos sonhos. a anestesia vem depois. vai! vai! vai logo esvaziando os bolsos. com sonho já vi vários se machucarem por aqui, é proibido. pode se convencer que nunca vai conseguir, aí entra. criança sonha diferente, mas agora você não é mais criança. e aqui não entra criança. suas células já trocaram mais de 5.000 vezes, então você já mudou inteirinho. é adulto, se liga. tem várias coisas que você vai ter que saber e também tem várias regras. o verbo aqui é tem que. tem que fazer, tem que ir, tem que ter. aqui tem regra e aqui ninguém erra, ou ao menos não admite que erra. isso já é razoável. um mundo de opções. aqui você tem probabilidade, publicidade, chance de ganhar na loto, fim de semana, futuro e esperança! aqui você também quer ordem e progresso, ordem e limpeza. ordem e beleza. tudo muito arrumadinho, tudo muito certinho, você vai ver, você vai gostar, não pensa muito, atravessa essa linha, ...
e quem disse que não é pra ocupar espaço e foi eu mesma que de alguma forma me disse achando que ocupar espaço era alguma forma egoísta ou que tirava o espaço de alguém. e porque tanto pensamento pra saber, tanta falação, ensaio, enrolação em vez de vai. vai lá e faz. porque tanta fé na falta. meu deus, você que tá fora e também disso, porque tanta falta de fé. e quem foi afinal esse sujeitinho engomado que te disse que de todos, você, logo você, era o que não era viável? os desvios também podem ser os caminhos e caminho é qualquer coisa que você escolha e percorra e tem muitos e tem aqueles que são os seus. onde você passou esse tempo todo? ou, desculpe, estou sendo intolerante, em quem foi mesmo que você acreditou? tô acreditando agora que é possível ser errado, só porque por aqui não foi nem o certo nem o errado, tem é o que é e eu achei isso muito interessante porque é muito melhor quando você se deixa isso. e apesar de saber, às vezes você ainda não sabe direito porque tem o...
a porra da vida ou esporro fudido de gozo na boca é outro e essa é a coisa a ntes que a vaca tuça é necessário que você engula, essa porra desse medo que te incendeia. porra é bom, fogo também, mas volto a repetir que a porra do medo quando esporra na tua cara, na tua vida, na tua esquina, é ruim. e também não é legal e também não te ajuda e também não te protege. só te fode. fode garotão. mas fode gostoso. e não adianta reclamar que pra vida não há níveis seguros, gato. nem pra você, gata. e aí você olha na rua e vê uma porrada de coisas, mais uma porrada de pessoas, uma porrada de uma pessoa, muita porrada nas pessoas e vê que na verdade não tem verdade nenhuma que lhe caiba ou que lhe explique ou ainda que dê conta de tanta coisa absurda, porque é isso aí, é tudo absurdo pra caralho e nenhum esporro moderno conseguiu mudar isso ainda e aí é essa chuva de porra de um monte de gente querendo amar. e é tudo isso aí. e a singeleza das pessoas se arrumando pra sair pra passear, no domi...
sei lá
tentou um dia falar todas as suas verdades e se dissolveu. liberou-as todas de uma vez, assim de impulso, sem nem um pensamento que ao menos lhe chegasse antes. não economizou, não se assustou, não chorou. ficou só e só foi ficando e também transparente. até já tinha imaginado, por via das dúvidas, que isso pudesse acontecer, mas soube pelo correio que nada, nem ninguém a deteria, ao menos não naquele exato instante, o que tornava a questão um simples ato de fazer o que talvez fizesse com que tudo, finalmente, enfim, fosse feito. afinal, eram verdades que não pertenciam a todos, mas algumas sempre estiveram lá e sobre isso não havia o menor sinal de dúvida. à essa altura, já sabia também, que pra ser executado, o movimento deveria ser radical, feito de um só gesto, sem hesitação, nem medo. pensava muito em libertar as verdades, ao menos as suas, do peso inexplicável de explicar o mundo. isso feito, o mundo seria finalmente sem explicação ou, na pior das hipóteses, as verdades não preci...
deveria ser permitido gritar bem alto quando você atravessasse esquinas e sentisse dor. faz bem uns dez anos que não nos vemos. de lá pra cá estive com você muitas vezes. outra coisa que fiz foi usar as ferramentas que me deu, não necessariamente na ordem dos aniversários, mas usei todas elas a ponto de conseguir construir novas. totalmente originais. talvez você não reconheça algumas, mas elas são certamente suas e algumas já são até minhas também. teve um momento em que me mudei pro presente. não sei se te avisei, não deixei endereço. isso porque não teve jeito e, por mais que tentasse, não consegui me livrar do imutável metro cúbico que meu corpo ocupava. insistia muito em ocupar. não importa o que eu fizesse, não importa pra onde eu fosse, debaixo do meu pé sempre tinha chão. e isso significava que você existia. mesmo que outra pessoa não quisesse. mesmo que outra pessoa não gostasse. era melhor então que se fizesse alguma coisa. um homem gritou: quem são vocês? os loucos que enter...
fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga I. o medo te reverencia e exige que seja só dele. de medo se faz guerra, frustração, indiferença, solidão. e se você der sua matéria ao medo, não te resta nada a não ser, não fazer. e isso é morrer. duvidar talvez seja uma parte da fé escolher o que duvidar talvez seja escolher no que acreditar cuidar faz coisas ficarem vivas
desorganizando o caos ajeitando a massa embaralhando a mente num emaranhado de gente desembolar o fio andar em cima seguir o rastro matar rato mostrar entranha configurar o céu molhar a página riscar o risco encontrar o mar será? a forma como organizamos palavras, a forma como organizamos o mundo? descartar o organismo que te organiza como algo que não pode ser desorganizadamente belo fazer, fazer sem parar, fazer sem julgar
coletando.