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miríade e entropia meu nome é vanda. sou esteta e também vítima, atividade que passei a apreciar ao longo dos anos, curtidos sempre com muita dor. uma dor gostosa que no início machucava muito, revoltava, dava raiva, mas que foi se transformando, afinal sou uma pessoa que sabe aprender com os erros e amadureci, então a dor que sinto agora dói, mas ao mesmo tempo justifica e você sabe, nesse mundo, se você conseguir justificar alguma coisa, tá meio caminho andado. e nesses últimos anos, modéstia a parte, fiz isso muito bem. sou esteta e persigo o belo, o bom, o bem, o equilíbrio, a leveza, a sofisticação, o bom gosto e o refinado. gosto de coisas arrumadas, por que não? também gosto das coisas caras, por que não? por isso gosto de pessoas ricas, por que não? de acordo com a delicadeza da minha alma, o mundo deveria ser um lugar muito mais elegante. muito mais suave. o texto devia ser sempre retificado pela esquerda e o quadro pelo meio. judith, sua mulinha, quantas vezes já não ...
e nquanto tiveram dentes os predadores morderam. sem culpa, sem remorso, sem dó. o predador desdentado não é um animal, ele é um homem. alguns homens, vários homens que escolheram acreditar naquilo que foi dito. os predadores desdentados adoraram, durante toda sua vida: sistemas verticais escalar montanhas um departamento pra chamar de seu castas galgar posições estar à frente novidade ciência tendência nível alto nível degraus pirâmides organogramas organizações hierarquia rumo ao topo. sempre o topo. nunca o fundo. os predadores desdentados não contam história, contam versões e contam dinheiro. para os predadores o mais importante é que nada conste e que a sordidez esteja sempre na última gaveta, no cofre do banco, no outro e nunca, nunca em si mesmo. os predadores desdentados acreditam em fracasso. os que fracassam se sentem injustiçados e os que não fracassam não acreditam em justiça. mas em força, poder, capital, carro, c...
1 dia inteiro é muito bom pra modelar os afetos amanhã eu revolto a reparar
desenho que eu fiz usando esse programa que é uma delícia: http://mrdoob.com/projects/harmony/
o zelador zela. o zelador zela, pelo menos. pelo visto o zelador zela pelo: conservador, que conserva, reformador, que reforma, consumidor, que consome, jogador, que joga, bajulador, que bajula, orador, que ora, fumador, que fuma, comedor, que come, matador, que mata, senador que bebe, bebedor, que pensa, pensador que burla, portador que porta, ela. e ainda zela pelo: corredor, elevador, odor, gerador, ardor, pudor, fedor do amador, que demanda: onde está o zelador? dor. onde está o zelador? *** nada é mais urgente que fazer poesia e mesmo assim você se deita
trinca de dois, independente da ordem em que é feita conclusão: o gozo é o instante capturado em forma de nome e também: o gozo é o estupro da razão que sempre sai satisfeita eu não penso de véspera eu escrevo em paredes eu subo pelas paredes
luiza fazia extamente o que estava fazendo fazia tempo e por isso ninguém notava e porque também estavam sempre atrasados precisando se adiantar e sempre que adiantados precisando esperar alguma coisa que ainda precisa acontecer menos luiza que fazia sempre o que estava fazendo e por isso ninguém a notava sempre ocupados sentindo sem parar sentindo sentindo sentindo ressentindo menos luiza que para eles perdia tempo espalhando o próprio tempo por tudo quanto é lugar porque não importa o que luiza fizesse, ela estava sempre e era sempre neste lugar e na cozinha, cozinhava ou lavava, ou comia ou sujava e na rua andava ou olhava, cumprimentava, admirava, comprava, respirava e no trabalho, trabalhava e na cama dormia, sonhava, bocejava, suspirava e suava e no banho molhava e na chuva dançava e no rio nadava e no sol esquentava e no amor amava porque para luiza lavar a louça leva exatamente o tempo de lavar louça e sempre que percebia estar um pescoço à frente ou um pescoço atrás luiza ag...
era pra falar sobre o banho quando a tia falou: tem que vomitar senão passa mal. tem que vomitar, tem que botar pra fora senão passa mal. sempre achou aquela perspectiva do boxe interessante, também sempre gostou de tomar banho sentada no chão. lembrava de quando era criança. nesse meio tempo, que era o tempo em si, decidiu narrar até que a tia falou: tem que vomitar senão passa mal. nunca foi boa em enfiar o dedo na garganta, o que significava que naturalmente tinha facilidade em reter coisas. escorria. pensou no ralo como possível saída. tirou a tampa do açucareiro como se fosse a tampa da própria cabeça. olhou pra dentro, serviu, bebeu.
em tempo de carnaval verão rigoroso estado de exceção fim de festa pensando sobre roupas pensando sobre coisas fantasias fantasias? a gente usa uns pedaços de pano pra tapar nosso sexo porque dele sempre escorre alguma coisa é uma mucosa e como tal não pode ser exposta porque pinga alguma coisa porque machuca porque goza porque é molhado porque escorre entre as pernas o seu sexo escorre entre suas pernas e precisa ser contido você precisa ser contido você precisa ser contido? apertado na própria pele é impedido de expandir explodir controle é uma necessidade que alguns tem de ter poder um tipo de poder você pode o que?
noções de auto-ajuda no exato momento em que você ficar se perguntando a partir de quando você passou a não acreditar mais em si mesmo, esse é o exato momento em que você vai precisar começar a acreditar. atenção. monte guarda, fique firme. imagina agora se só existisse você no mundo. de que forma você agiria? como você seria? esse aí é você. mas esse mundo, só com você dentro, não. então é melhor ser tímido. tímida. não perca o foco, volte ao assunto principal, mesmo que sejam mil vezes, mesmo que sejam mil assuntos. pare de pedir aceitação e principalmente às pessoas. você já sabe. elas não vão aceitar mesmo, nem mesmo você. de onde geralmente um conclui que é perda de tempo. então aceita que eles não aceitam, então tanto faz. acorde todo dia se procurando. é uma garantia de estar vivo e isso é muito bom. não caia em armadilhas semânticas. ao menos tente não cair. isso também é muito bom. declare. use. e use muito. use muito, mas muito mais “e” do que “mas”. quantidades industria...
escrever pra não morrer, escrever pra não surtar, escrever pra desviar a dor. atenção. escrever pra não ficar pregado no chão, feito uma lagartixa apavorada, daquelas que são tão ou mais corajosas que você. escrever pra balançar as estruturas, as escrituras os dogmas que te enfiam goela abaixo. a ponto de te desestruturar. e você não quer gritar! não quer vomitar! por que? tanta coisa pra dizer. tanta coisa, tanta coisa. tanta coisa que tem. que eu nem imagino, que eu lembro, que eu vi. sem saber onde colocar. se tudo tá contido dentro, entre você e o mundo é justamente o espaço que é preciso. pra escapar, achar, habitar. habite-se. repita, repita, repita você até o dia que você se convencer. que a diferença é. que é possível existir além de todas as perguntas. aqui. o coração bate antes que se tenha certeza.
e screver pra extraviar escrever pra não explodir explodir antes de escrever é preciso ser desfeito eu preciso ser desfeita eu preciso achar um motivo porque tudo o tempo todo te puxa te espanca te confronta te pede pelo amor de deus pra você ser infeliz sofre, filha sofre filha da puta gruda nesse seu alicerce escolhe um parede bem boa um tipo que te divide atormenta e bendiz sua maldita e estonteante segurança obedece a quem te ama come pra não mofar corre pra não murchar e você, bêbado de paixão intensidade perplexidade fica aí a expor essa pele quanta vergonha tentando em vão sentir nem que seja alguma coisa alguma outra coisa que te faça entender porque porque não há motivos que bastem basta que haja você *** às demandas atropelantes: vendam-se sem impostos ao governo geral do teu desgoverno descentralizado e absoluto absolutuamente nada resolutamente real avassaladora...
vocês verão
perder o controle
antes de agora, o que significa algum tipo de tempo atrás e a fronteira é sempre tênue, eu não tinha condição de gostar de jazz e me lembro disso com uma nitidez desconcertante. condição no sentido de que era completamente incompetente. e não me refiro aqui a algum tipo de competência contemporânea que te distingue do outro a ponto de atropelá-lo. falo de uma competência que te permite perceber, sentir, viver, escolher, entender. eu não sabia que era um texto, uma história, trocentas nuances, vidas e vozes. conversando, gritando, chorando, rindo, falando. o equilíbrio distante, a delicadeza e violência, arrebatamento, atravessar um linha entre dois pontos, mergulhar no maior dos abismos, a coragem de tentar. fazer. florescer. o mesmo fato que você vê, visto de dentro de outra pessoa. o fato que você não vê, visto de dentro de você, por outra pessoa. o outro fato que você vê, visto de dentro do outro em relação a você. que me vê do outro lado. contra a lei da gravidade, notas que flu...
ele acredita que o destino mais glorioso do homem é ficar imóvel, sentado no seu grande sofá ou grande poltrona, ou grande carro, ou grande lancha, ou grande casa enquanto manda o assistente providenciar, a secretária ligar, a empregada limpar, a mulher resolver. ele acredita e persegue, como um ideal, o prêmio, o fim, a forra, a conclusão, o futuro. quem não faz sucesso é fracassado e tudo o que quer é um fim de semana, um feriado, uma folga, um reconhecimento, uma compensação. sempre soube, sempre quis e se orgulha em dizer “sacrifiquei minha vida pessoal pra chegar onde cheguei e sei extamente o que estou fazendo. optei por isso”. porque o resto do tempo é tudo um grande sofrimento, uma grande tortura, uma puta e fudida azucrinação. teu colega é incompetente, tua estagiária, burra, teu chefe, arrogante, tua secretária, gostosa, tua mulher, chata. e você não tem a mínima idéia de como eles foram parar ali, ao teu lado, só tem certeza de como você chegou ali, acima deles. e de qu...
fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga III.
tinha o caráter forjado a tédio. já tinha sido artista, mas disso se lembrava muito pouco, tinha sido há muito tempo. algo que o lembrava a juventude e só. agora gostava mesmo era de ostentar seu cabelo branco a la rc e de se sentar atrás de sua grande mesa de mogno. o momento que mais saboreava era quando as pessoas entravam em sua sala e o viam naquela posição magnânima, soberana. passava dias inteiros esperando por eles e depois passava dias inteiros relembrando sua performance, os olhares, as reações previsíveis, os gestos inseguros da disfarçada sede de seduzir. o desejo sexual tinha sido substituído pelo desejo de poder, mas quanto a isso não se preocupava mais, tinha feito uma boa troca. o que lhe dava tesão mesmo era sucesso, mármore, whisky, puta, convite, vip, artista. tinha claramente passado pro outro lado e isso o agradava, o fazia sentir mais forte. olhava aqueles wannabes todos com um profundo desprezo, mas isso nunca ia admitir. ela sabia que podia se meter em encr...