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ia ter que tomar coragem como um líquido espesso, um bom vinho. precisava entrar naquele avião. todas as promessas comprimidas e pressurizadas ali, naquele pássaro de metal. cruzando continentes. cruzando destinos. era melhor viajar à noite porque não dormia melhor. tinha bebido. o voo atrasou. muitas horas sem comer. um cansaço que desaguava em medo. frio na barriga. suor frio. frio. pressentiu aquela onda de desequilíbrio rondando a cabeça a partir do umbigo. maremoto hidroeletrolítico baixa de glicose soro caseiro na cafeteria por favor. pavor. iria arremeter? olhou pra trás e viu a esteira rolante levando, a vida a levando de volta pro mesmo ponto.

a felicidade é o melhor tempero. maria, a aeromoça de aspecto familiar, a ensinou a respirar pela barriga. a soltar bastante o ar. a soltar tudo aquilo que a fazia tremer em ondas. também pediu que fechasse os olhos e investigasse o que tinha no seu estômago e o que tinha no seu coração. sem sismar. se ali estivesse tudo bem, iria sobreviver. a cabeça, esse sim era o lugar que dava o que falar. apesar da fome, não conseguiu comer. coca cola é o pior e o melhor remédio. mais dez horas de voo. uma porta que não podia se abrir. um dia que iria finalmente chegar. o novo, sempre o novo.


uma escada, um túnel, um ônibus. duas longas filas. travessias em busca de luz e saída. nascimento. bastava uma saída, um vento soprado a favor no meio da tempestade. tinha conseguido atravessar o mar, chegar na terra das lâmpadas amarelas. ali deveria ser o seu lugar.

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