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sentindo mesmo a ausência de mim sem ter como botar vida que seja nem papel caçando palavras no vento cheia, entupida de coisa que nem sei de que jeito sair mas tenho quase e é uma certeza um monte de idéia, um monte de afeto, um monte de medo um monte de tudo que pro medo eu não quero dar nada que seja meu, então é com ele que eu brigo agora pra que depois não seja teu porque dele se diz que tá e é e é sempre aí e disso eu tenho alguma que seja ao menos a certeza me formar em coragem me forjar em alguma coisa que talvez seja eu às vezes sensação de inútil pequena, pequena, pequeníssima, invisível nessas horas quero também nessas horas quero muitas horas nessas horas quero muito você estranho jeito de fazer aquele que te pulveriza em milhões que te espalha pelo espaço, algum que ainda não sei ou tomei tomara que de mim haja alguma coisa talvez seja melhor que de mim eu aja o que quer que possa ser e sim, mas também não, eu sempre fui e agi e achei e mesmo assim que de incertezas eu sei...
fico pensando sobre os vários tipos de amor desejado, desmamado, dado amor desalmado, amor defraudado amor que se precisa e em primeiro lugar, recebê-lo? amores tortos, amores vadios, amores bravios, amores tardios amores sujos, brutos, nulos, amores puros amores de adjetivos, amores dispersos, amores honestos tingem sentimentos amores transversos amores descobertos mimetizados, imaginados e arrastados amores estrangulados e encapsulados, amores capados em nome do amor amores que sabem, amores que não, amores ridículos, amores maquiados e os amores transviados amores tortos e contaminados amores de todos os tipos em nome do amor amores de todos os homens e homens em busca todos de amor os homens apavorados os homens imaginados os homens congelados em nome do amor e que de amor se faça nome de coisa que enflorece o peito agora sem medo
Pessoas esqueleto carne precisam de duas toneladas de ferro pra transportar seus quilos. De uma lugar à outro é que vamos em trânsito encontrar. É fim de alguma coisa e por semanas se enumeram reuniões, despedidas, desmedidas, expectativas que balançam na balança. Balanço com cordas presas em galhos de árvores fortes é que se precisa empurrar. Já as barrigas empurram os anos em direção ao outro num deságüe que entorpece. O mundo de todo mundo atravessa o mundo e alguns abdomens que sempre se contorcem lá dentro. Da saída se fazem as costas, as mostras, um solo que recomeça noutro corpo aberto. É uma estrada. E no fim e no começo e no meio e no fundo e no ralo, não importa o que se suponha nem o que aconteça, o que todo mundo quer é ser visto é ser amado. Vejo os amores estrangulados. Vejo os amores tentando sair. Vejo turbilhões de gesso no nosso próprio exoesqueleto. Criado aos poucos dias perfeitos, um diante do outro, um que trás o outro. Tem gente jogando e tem gente se jogando. Te...
eu acredito que as coisas acontecem, embaixo do nosso nariz e o tempo todo. onde você foi? fui ser feliz. onde você vai? vou ser feliz.
respeitável público. respeitável público? o público é respeitável? você respeita o público? você é público? você se sente respeitado? quais públicos estão sendo respeitados, e quais não? seu público tem poder? e o poder público? público é poder? o poder é público? poder do público é também poder? você tem público? e poder? se você não se respeita, você respeita quem? o que é afinal o respeito? publico.
tá tudo tão frio e vazio e não restou quase nenhum sinal de lugar pra eu ficar sinto a vaidade infernal dos amigos que juraram não sinto o corroer de tentativas mesmo que loucas sinto um buraco tão grande no peito, na barriga, no estômago que finalmente me transformei no meu próprio buraco, no meu próprio vazio um jarro no jarro tem gente jogando coisas, no jarro tem gente forçando, no jarro tem gente empurrando, entrando inteira dentro do buraco e de mim tomam e de mim o lugar e me empurram pro fora me empurram pro lugar que eu não sei vejo uma chuva de horizontes ácidos primeiras pessoas, nenhuma segunda, nenhuma terceira um tempo todo um e eu eu eu eu eu eu te amo ladainha latejante, excruciante, aniquilante supremacia de uns médios uns grandes, uns pequenos todos sempre umbigos, todos muito próprios desejo sumir como num dia criança desejo não ter forma, sabor, cheiro e cor desejo de dissolver. virar brisa que passou quero não ser, não est...
flagrante um
flagrante um
LOST IN TRANSLATION minha língua rebola dentro da boca e a caçapa responde do escuro o que te procura beleza e bem estar? eu digo não às figuras, mas elas são uma linguagem e não tem absolutamente como te ver na perspectiva em que se encontram agora eu me sinto densa, andando no meio de uma gelatina tenho feito muito frio lá fora também na chuva, o que consegui, foi perceber que são doces somente os que ficam molhados pude dizer ainda que todos temos vulcões “tá bom?” “tá bom.” me desespero à procura de uma gramática que ame os flancos é uma descompostura dizer que existe a certeza
preciso de um tanto de realidade pra que eu possa me agarrar feito uma tabuinha de salvação de mentira e não simplesmente escorrer como agora entre as frestas e as pernas do que eu quero ser e do que efetivamente está guardado pra mim porque tem gente guardando pra você lugares que você não quer e você nem sabe disso. e uma das piores coisas é quando querem negar sua existência, fingir que você não existe, te isolar num lugar em que você não incomode o outro com suas dores e desejos. e daqui a pouco a mesma ação que te isolou aparece na sua frente em forma de mão querendo te comprar com uma migalha de existência e você tem fome mas sabe que agora é preciso recusar. esquálido o esqueleto faminto dança pra disfarçar a leveza e chora lágrimas escondidas onde ninguém é capaz de visitar. essas águas são feitas de tempo e corroem os horrores para além de algum lugar em que talvez seja possível regar. a violência é pura e bruta e brota de um sorriso com a facilidade com que quer te presentea...
você fala sem parar e da sua boca sai uma massa dourada e metálica e pesada que se espalha na frente da sua cara e primeiro surpreende e parece até bonito, mas vai ficando feio e sério e parece um trombone sólido e sua boca fica aberta que nem a de um peixe e você espanca o vômito sólido de metal e ocupa o espaço das pessoas e você acha que encontra alguém ou alguma coisa, mas você fala sem parar e não ouve sem parar então sua palavra vômito fica confinada no espaço entre você e a próxima pessoa e a próxima coisa e você disfarça e grita mais e pensa que tudo que não é você é inadequado, insuficiente e roto e pensa que mulher é uma rachadura entre as pernas, um abismo que deve ser envolto por bastante carne justamente pra tapar o abismo, mas essa carne tem que ser boa e bela e tesa só pra você olhar e falar e tocar e quem não for assim merece seu desprezo e seu trombone e por isso você só dá atenção pra gente que tem um pino entre as pernas e pra você o pino é bom e o abismo é o vazio e...
quantas vezes por dia você usa a palavra comprar? e o que isso tem a ver com a crise econômica e com o fato do mundo inteiro estar se mobilizando - de uma maneira nunca vista em relação à nenhum outro tipo de problema - e despejando um mar de dinheiro nos mercados com o firme propósito de manter tudo exatamente como sempre foi?
o que te ofereceram foi o poder e você quis e você nega porque tem vergonha de dizer que adora poder e procura ele que nem um viciado em cocaína e você tem nojo de quem cheira cocaína mas você já não consegue mais viver sem poder e aí você cheira a perfume caro e gente come gente já faz muitos anos
Me lembro, numa idade da qual não tenho lembrança, deste minúsculo fato, tão corriqueiro, tão usual. Eu também era pequena, ou me sentia assim, e fui brincar na casa da melhor amiga. Melhor era ser muito bom, mas pra melhor sempre tinha também muita expectativa. A mãe da melhor era professora, brava, exigente, elegante, tipo de pessoa que mete medo e ao mesmo tempo trai. Naquele dia, ela preparava enfeites pra uma festa e nos chamou pra ajudar. A tarefa era específica: pintar uns coelhinhos de papel, vários deles, que decorariam doces e brindes. Havia padrões de cores e contornos pra seguir, mas naquele momento, por alguma razão que me era desconhecida, isso não me pareceu importante. Mergulhei na tarefa livre e sem medo. Finalizado o projeto não me contenho de ansiedade, confiro o coelho da amiga e a ficha cai. Cheia de respeito, admiro sua caprichada habilidade de copiar. Tenho um lampejo de pensar que o pensamento de estar fazendo diferente me passou pela cabeça, mas seguiu adiante....
se sou andarilha é porque me ocorrem coisas enquanto ando. você já viu crianças com guarda-chuva, crianças de até meio metro? talvez não muito, porque pra elas o guarda chuva não tem função. e quando eventualmente alguém insiste em ensinar a elas como andar segurando um mini toldo em cima, ao invés de deixá-las receberem gotas do céu ou ao menos botar uma capinha poxa vida, elas mal conseguem andar. guarda-chuva é só um objeto de adulto. sempre me angustia também a quantidade de pessoas no mundo - todas únicas, com suas histórias únicas - e o fato de que sei tão pouco sobre elas. e é tanta vida e tantas coisas que passam por elas e quando sou eu que passo pelas pessoas eu tento desesperadamente encontrar seu olho e captar tudo que cabe nele e aí a pessoa já passou e nem me viu e eu talvez nunca mais a veja, e eu não sei nada sobre ela nem ela sobre mim, mas sei claramente que ela é tão importante quanto eu e todos nós, mas é sempre muita gente e por isso a gente não vê. desejava qu...
PRECISO PAGAR MINHAS DÚVIDAS
em mudas certezas se escondem os becos que tingem de azul um novo limiar brilhante no auge da exaustão amanhece ainda bem que tenho você *** ao coração, que se dá o direito de prover
olho e vejo todos andando sobre seus fios de navalha a maioria tem a face altiva e a postura incompatível com quem anda sobre uma lâmina, como se ela não existisse fico desconcertada com a minha e a incapacidade de ignorá-la vejo também que a maioria sangra e quase sinto sua dor, na verdade me lembro da minha e do meu sangue gotejante, e quero que não doa pra ninguém ou que ao menos faça algum sentido mas andar numa lâmina nunca foi coisa pra qual se desse sentido, só direção resolvi, à força, transformar minha lâmina em fio e ver no que dá o equilíbrio é uma coisa que se experimenta uma deliciosa sensação de pender pra lá e pra cá até encontrar um lugar que seja seu e que não exclua o meu dizem que este lugar sempre existe no intervalo entre lâminas e fios e é preciso voltar a buscá-lo e rir de seu próprio movimento que com capricho e treino se torna de fato uma dança há graça na oscilação e a tentativa é o meio de conseguir alguns, que já viram um horizonte sem balanço, relatam que t...