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textículos / volume #1



josélia se assustou com a incrível capacidade dos merdas fazerem merda e estarem sempre em evidência. josélia via merdas na tv, nos jornais, nas revistas, nos parques, nas redes sociais, nas propagandas, no trânsito, no mercado, no governo, nos estacionamentos e nos restaurantes a quilo, ou seja, os merdas estavam definitivamente em evidência. josélia, que se esforçava tanto, se sentiu injustiçada e começou a questionar os merdas e suas merdas, intensamente, e foi aí que sua mãe lhe falou: josélia, em vez de ficar se achando importante, por que você não presta atenção nos merdas? ô, menina preguiçosa. fica aí só reclamando em vez de ver que os merdas não tão por aí de bobeira não, viu josélia? eles tão é fazendo merda, insistentemente, pacientemente, há gerações e gerações e ao contrário de você, criatura sem fé, um merda não reclama, ele trabalha, com afinco e dedicação. e se você fizer o mesmo, minha filha, tenho certeza, de que um dia você pode se tornar uma maravilhosa merda. porque um merda não desiste de bobeira, josélia, pode observar. os maiores merdas insistem muito na sua merda, acreditam nela com vontade e perseverança, trabalham diariamente até conquistar, com muito suor, seu merecido lugar de merda. mas isso não é pra qualquer um, josélia, porque o mundo também não é assim minha filha, e talvez você não tenha jeito, não tenha nascido mesmo pra ser merda. melhor se conformar. mas eu continuarei te amando de qualquer jeito. um beijo, josélia. vai com deus. eu ficarei com os merdas.

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preciso de um tanto de realidade pra que eu possa me agarrar feito uma tabuinha de salvação de mentira e não simplesmente escorrer como agora entre as frestas e as pernas do que eu quero ser e do que efetivamente está guardado pra mim porque tem gente guardando pra você lugares que você não quer e você nem sabe disso. e uma das piores coisas é quando querem negar sua existência, fingir que você não existe, te isolar num lugar em que você não incomode o outro com suas dores e desejos. e daqui a pouco a mesma ação que te isolou aparece na sua frente em forma de mão querendo te comprar com uma migalha de existência e você tem fome mas sabe que agora é preciso recusar. esquálido o esqueleto faminto dança pra disfarçar a leveza e chora lágrimas escondidas onde ninguém é capaz de visitar. essas águas são feitas de tempo e corroem os horrores para além de algum lugar em que talvez seja possível regar. a violência é pura e bruta e brota de um sorriso com a facilidade com que quer te presentea...
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