4.7.09





sei lá

26.6.09


Alinhar ao centro
pro andré

17.6.09


tentou um dia falar todas as suas verdades e se dissolveu.

liberou-as todas de uma vez, assim de impulso, sem nem um pensamento que ao menos lhe chegasse antes. não economizou, não se assustou, não chorou. ficou só e só foi ficando e também transparente. até já tinha imaginado, por via das dúvidas, que isso pudesse acontecer, mas soube pelo correio que nada, nem ninguém a deteria, ao menos não naquele exato instante, o que tornava a questão um simples ato de fazer o que talvez fizesse com que tudo, finalmente, enfim, fosse feito. afinal, eram verdades que não pertenciam a todos, mas algumas sempre estiveram lá e sobre isso não havia o menor sinal de dúvida. à essa altura, já sabia também, que pra ser executado, o movimento deveria ser radical, feito de um só gesto, sem hesitação, nem medo. pensava muito em libertar as verdades, ao menos as suas, do peso inexplicável de explicar o mundo. isso feito, o mundo seria finalmente sem explicação ou, na pior das hipóteses, as verdades não precisariam mais se dar a este trabalho. abriu ao máximo, máximo mesmo, a boca ao mesmo tempo que deixou de engolir. para fora era um movimento só. no seu sonho viu ainda décadas, séculos, planetas inteiros cheios de verdades brutalizadas, mal tratadas, abusadas. há muito já se sabia que o mundo não tinha explicação, mas soube, através de outra verdade, que ninguém tinha coragem de falar.

enquanto via, encantada, as verdades voando pra fora da sua cabeça, em jorro, através da boca, mas agora também dos ouvidos, observou que, no percurso, muitas se transformavam em outras, outras simplesmente sumiam e algumas se davam os braços, mesmo sendo muito diferentes. ao menos no seu mundo onde faziam questão de não guardar nada que não fosse caoticamente razoável. e isso foi o que ela disse, ou se sentiu dizendo, no intervalo de saída entre uma verdade e outra, que de forma oposta ao nascimento das pipocas, saem primeiro aos borbotões, em alta velocidade e depois cada vez mais devagar, até que a última lhe avise que saiu, momento exato em que invertem seu movimento e passam, de volta, a entrar em você, só que de outro jeito. porque já tinha percebido que cada mundo tem um jeito e, não faz muito tempo, as regras eram exaustivamente estudadas pra funcionar somente por breves períodos, no qual se podia ver todo seu resplendor.

nos lugares em que não eram úteis, as regras passavam muito pouco tempo.

sem nunca ter um início ou até mesmo a leve indicação de fim, foi observando a dança das verdades que flutuavam soltas em direção à rua, às árvores, mas principalmente em direção às pessoas. soube então o quanto as verdades se apegam e viu que geralmente é aos seres humanos. mas o que também viu em seguida foi que, por algum estranho motivo, quase ninguém percebia suas verdades em movimento, donde concluíam sempre que, na verdade, cada um tem a sua própria verdade e que, a não ser em estado de exceção, elas não devem se misturar umas às outras. que besteira, pensou, verdades gostam de si mesmas, mesmo que sejam outras. mas ela, do ponto de vista em que estava, podia perceber tudo muito mais claramente e descobriu que o ângulo aplicado a cada verdade fazia de fato seu rosto parecer diferente. sobre isso não tinha mais dúvidas. é inevitável e é verdade que as verdades passeiam, e pode até ser sobre si mesmas, porque dessa forma desenvolvem os interstícios que, por sua vez, são coisas que as fazem rir. aprendeu assim a respeitar e admirar toda a diversidade de verdades, mesmo as que não são, e chegou à conclusão que, livres, elas ficam muito mais vezes e muito mais bonitas. fato que, quem quer que se encontre com elas, é imediatamente obrigado a aceitar. depois de aceitar, estava escrito que era possível brincar. mas esse escrito durava apenas alguns segundos o que exigia necessariamente, não exatamente ler, mas realmente querer, olhar.

no instante seguinte, logo após se dissolver, ela gritou. era pra quem quisesse ouvir ou até mesmo falar, todas as novas e verdadeiras verdades que agora todos poderiam deixar de saber sobre a verdade. mas vendo-a assim, tão dissolvida, as pessoas acharam por bem se achar de bem. e de bem, no caso específico de dissolvimento, seria, geralmente, ignorar o dissolvido e ao mesmo tempo o acusar.

os homens chegam facilmente às conclusões, uma vez que costumam guardá-las nos bolsos e algumas vezes nas gavetas.

ninguém estava interessado em nenhuma verdade que não fosse a sua. para esses, ela ainda soube, o mundo deveria ser só e somente, a sua própria explicação.





11.6.09


deveria ser permitido gritar bem alto quando você atravessasse esquinas e sentisse dor. faz bem uns dez anos que não nos vemos. de lá pra cá estive com você muitas vezes. outra coisa que fiz foi usar as ferramentas que me deu, não necessariamente na ordem dos aniversários, mas usei todas elas a ponto de conseguir construir novas. totalmente originais. talvez você não reconheça algumas, mas elas são certamente suas e algumas já são até minhas também. teve um momento em que me mudei pro presente. não sei se te avisei, não deixei endereço. isso porque não teve jeito e, por mais que tentasse, não consegui me livrar do imutável metro cúbico que meu corpo ocupava. insistia muito em ocupar. não importa o que eu fizesse, não importa pra onde eu fosse, debaixo do meu pé sempre tinha chão. e isso significava que você existia. mesmo que outra pessoa não quisesse. mesmo que outra pessoa não gostasse.

era melhor então que se fizesse alguma coisa.

um homem gritou: quem são vocês? os loucos que enterraram o futuro, lhe fizeram um grande funeral, lhe deram uma grande banana, lhe disseram adeus?! e como ousam? uma mulher me esclareceu: ainda bem que ele era diferente porque diferente é tudo que não é você, mas às vezes, e é na grande maioria das vezes, diferente é você e é também. um monte de diferente fazendo indiferença. quem diria, disse eu. faz tempo que eu me pergunto essa pergunta, ela retrucou. qual a diferença que faz?

teve um dia, logo depois de existir, que eu passei a ser, mas era uma pessoa que eu não era e era assim por mais que eu fosse. fiquei extremamente confusa com essa situação. ser afinal serviria pra que. não, não se trata de servidão, disseram. esclareceram também que é pra vestir a vida e você poder ver.

e se eu pisar mais forte? nem assim o chão cede. e se toda a minha estupidez também for a sua? quem sabe assim nos tornamos grandes amigos. quem sabe assim o que me difere talvez faça alguma diferença que também te diferencie. porque sim, somos todos estúpidos. cada qual coberto das mais sinceras e elegantes explicações. adiando o momento exato, o único em que você pode caber.

ela nunca gostou muito de ocupar espaço. o que significa que nunca gostou de briga. por isso também tinha preferência por esportes individuais. se fosse pra competir com alguém que fosse consigo mesma.

a dor que dá no dente é simultaneamente uma dor que dá em gente. virou outra esquina e viu na calçada um homem dentro de uma caixa de papelão. homem caixa. um a um viu homens entrando em caixas. a de papelão era privilégio dos pobres. desconstruiu mentalmente a sua e seguiu imediatamente seu caminho. algo a fazia caminhar. da sola dos sapatos uma pressão que nascia embaixo. ao rés do chão. num universo reto, há sempre muitas linhas a traçar.

7.6.09

fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga

I.




o medo te reverencia e exige que seja só dele.

de medo se faz guerra, frustração, indiferença, solidão. e se você der sua matéria ao medo, não te resta nada a não ser, não fazer.
e isso é morrer.

duvidar talvez seja uma parte da fé
escolher o que duvidar talvez seja escolher no que acreditar


cuidar
faz
coisas
ficarem
vivas

11.5.09

desorganizando o caos

ajeitando a massa

embaralhando a mente

num emaranhado de gente

desembolar o fio

andar em cima

seguir o rastro

matar rato

mostrar entranha

configurar o céu

molhar a página

riscar o risco

encontrar o mar

será?

a forma como organizamos palavras, a forma como organizamos o mundo?

descartar o organismo que te organiza como algo que não pode ser desorganizadamente belo

fazer, fazer sem parar, fazer sem julgar

8.5.09


coletando.

30.4.09

tem sempre que ter um produto entre eu e você? tem sempre um produto entre eu e você. eu sou o produto de que? o salário nunca deveria ser mínimo, tampouco salário. eu trabalho. você me paga, você me mata. bom negócio as escusas. desculpa, desculpa, desculpa, sua vida acabou. obrigada por participar dela. me foi muito útil. a subjetividade é um lego. o que você vai fazer com o seu?

24.4.09


tudo que acontece, acontece acima do chão
o chão é teu amigo
o chão é uma linha
do chão você não passa

a coisa mais preciosa que tem é o uso que se faz do tempo

ela não tem a menor idéia do que falar e sobre que falar e para que falar e para quem falar
tudo e todos os dias e todas as horas e todas as imagens e todos os sons sempre entram e saem, entram e saem, sem parar, sem ao menos perguntar
ela teme a mania de distribuir vírgulas de modo aleatório, mas acredita firmemente que assim elas brotam mais fortes e só, só por isso, continua,
da cabeça roda um moinho que deseja intensamente se transformar num tufão e voar para fora do crânio, caixa que a aprisiona já faz muito tempo, sem nenhum motivo aparente

ela é tudo o que tá fora porque o que tá dentro só existe por causa do que tá fora e, fora isso, ela não vê, ela praticamente só sente, ou seja, ela descobriu que é apenas uma molécula no meio de tudo e não tem a menor idéia nem a menor chance de saber pra onde ir ou pra onde vai, mas vai ter que ir assim mesmo, querida, porque parece que é aí que as coisas realmente acontecem

acima do chão e você não passa
ela passa todo dia por lá e vê sempre mais coisas no lugar onde tinham que estar

ela tem a certeza que não vive sem você e nem sem vocês, ela gosta demais de vocês e ela é inclusive um você, mas mesmo assim fica cansada porque vê todo mundo falando de si, inclusive ela, só que ela sem você não tem o menor sentido e foi justo aí que ela passou a gostar muito de tango

passou, porque antes de conhecer não tinha absolutamente como gostar

uma dança que acontece acima do chão é a ideal, ela diz. uma de eus e vocês que procuram, buscam, desenham, antecipam, constróem um pequeno tempo em que são um e dançam um até um se desfazer e virar novamente dois e em seguida um e depois dois e um e dois e um e dois e um e eu e você

a coisa mais preciosa que tem é o uso que se faz do tempo

ela não tem a menor intenção de saber por que ou como tudo começou porque todo mundo já sabe que começou e sempre tem um porque e um como, mas isso você só vai saber depois porque é assim que as coisas são

mas o que ela quer mesmo é juntar todas as imagens de coragem e transformar numa não imagem ou na coragem de verdade, uma qualquer que a faça continuar

dançar tango acima do chão é não ter os olhos do medo, nem que seja por um segundo

a coisa mais preciosa que tem é o uso que se faz do tempo

13.4.09



felicidade se acha é em horinhas de descuido

11.2.09


sentindo mesmo a ausência de mim
sem ter como botar vida que seja nem papel
caçando palavras no vento
cheia, entupida de coisa que nem sei
de que jeito sair
mas tenho quase e é uma certeza

um monte de idéia, um monte de afeto, um monte de medo
um monte de tudo
que pro medo eu não quero dar nada que seja meu, então é com ele que eu brigo agora pra que depois não seja teu
porque dele se diz que tá
e é
e é sempre aí
e disso eu tenho alguma
que seja ao menos a certeza

me formar em coragem

me forjar em alguma coisa que talvez seja eu

às vezes sensação de inútil
pequena, pequena, pequeníssima, invisível
nessas horas quero também
nessas horas quero muitas horas
nessas horas quero muito você

estranho jeito de fazer aquele que te pulveriza em milhões
que te espalha pelo espaço, algum que ainda não sei
ou tomei

tomara que de mim haja alguma coisa

talvez seja melhor que de mim eu aja o que quer que possa ser
e sim, mas também não, eu sempre fui e agi e achei
e mesmo assim
que de incertezas eu sei fazer
sem temer
tomará
aquilo que é seu

o só e o seu

2.1.09

fico pensando sobre os vários tipos de amor


desejado, desmamado, dado

amor desalmado, amor defraudado


amor que se precisa

e em primeiro lugar, recebê-lo?


amores tortos, amores vadios, amores bravios, amores tardios

amores sujos, brutos, nulos, amores puros


amores de adjetivos, amores dispersos, amores honestos


tingem sentimentos

amores transversos


amores descobertos


mimetizados, imaginados e arrastados

amores estrangulados e encapsulados, amores capados

em nome do amor


amores que sabem, amores que não, amores ridículos, amores maquiados

e os amores transviados


amores tortos e contaminados

amores de todos os tipos

em nome do amor


amores de todos os homens

e homens em busca

todos de amor


os homens apavorados

os homens imaginados

os homens congelados


em nome do amor


e que de amor se faça nome

de coisa que enflorece o peito

agora sem medo

26.12.08

Pessoas esqueleto carne precisam de duas toneladas de ferro pra transportar seus quilos. De uma lugar à outro é que vamos em trânsito encontrar.

É fim de alguma coisa e por semanas se enumeram reuniões, despedidas, desmedidas, expectativas que balançam na balança.

Balanço com cordas presas em galhos de árvores fortes é que se precisa empurrar.

Já as barrigas empurram os anos em direção ao outro num deságüe que entorpece. O mundo de todo mundo atravessa o mundo e alguns abdomens que sempre se contorcem lá dentro. Da saída se fazem as costas, as mostras, um solo que recomeça noutro corpo aberto.

É uma estrada. E no fim e no começo e no meio e no fundo e no ralo, não importa o que se suponha nem o que aconteça, o que todo mundo quer é ser visto é ser amado. Vejo os amores estrangulados.

Vejo os amores tentando sair. Vejo turbilhões de gesso no nosso próprio exoesqueleto. Criado aos poucos dias perfeitos, um diante do outro, um que trás o outro.

Tem gente jogando e tem gente se jogando. Tem gente se jogando. Tem gente querendo, tem gente se machucando e a angústia é um gancho que te puxa pelo meio.

Os fins sucedem em começos. Finda um dia, finda um segundo, finda um ano, finda.

Tem planta pra botar na água. Tem um dia sendo feito.

8.12.08


eu acredito que as coisas acontecem,
embaixo do nosso nariz e o tempo todo.


onde você foi?
fui ser feliz.

onde você vai?
vou ser feliz.

4.12.08




respeitável público.
respeitável público?

o público é respeitável?
você respeita o público?
você é público?
você se sente respeitado?

quais públicos estão sendo respeitados, e quais não?

seu público tem poder?
e o poder público?

público é poder?
o poder é público?

poder do público é também poder?
você tem público?
e poder?

se você não se respeita, você respeita quem?
o que é afinal o respeito?

publico.