6.2.10

em tempo de carnaval

verão rigoroso

estado de exceção

fim de festa

pensando sobre roupas

pensando sobre coisas

fantasias

fantasias?

a gente usa uns pedaços de pano pra tapar nosso sexo

porque dele sempre escorre alguma coisa

é uma mucosa

e como tal não pode ser exposta

porque pinga alguma coisa

porque machuca

porque goza

porque é molhado

porque escorre

entre as pernas

o seu sexo escorre entre suas pernas

e precisa ser contido

você precisa ser contido

você precisa ser contido?

apertado na própria pele

é impedido de expandir


explodir


controle

é uma necessidade

que alguns tem

de ter poder

um tipo de poder?


você pode o que?

16.1.10

noções de auto-ajuda



no exato momento em que você ficar se perguntando a partir de quando você passou a não acreditar mais em si mesmo, esse é o exato momento em que você vai precisar começar a acreditar. atenção. monte guarda, fique firme. imagina agora se só existisse você no mundo. de que forma você agiria? como você seria? esse aí é você. mas esse mundo, só com você dentro, não. então é melhor ser tímido. tímida. não perca o foco, volte ao assunto principal, mesmo que sejam mil vezes, mesmo que sejam mil assuntos. pare de pedir aceitação e principalmente às pessoas. você já sabe. elas não vão aceitar mesmo, nem mesmo você. de onde geralmente um conclui que é perda de tempo. então aceita que eles não aceitam, então tanto faz. acorde todo dia se procurando. é uma garantia de estar vivo e isso é muito bom. não caia em armadilhas semânticas. ao menos tente não cair. isso também é muito bom. declare. use. e use muito. use muito, mas muito mais “e” do que “mas”. quantidades industriais. e repare, repare bem como toda hora você faz o contrário. de você. e fala muito, mas muito mais “mas” do que “e”. parece complicado, mas não é. parece complicado e não é. vê? parece complicado e é.


hoje é simplesmente um dia perfeito.


todo mundo, homem, mulher, criança, adulto, pequeno, grande, é igual. a gente é igual. em algum momento todo mundo chora, todo mundo fica alegre, todo mundo fica triste. e repare bem, não fui eu que falei isso. em algum momento todo mundo sente. em algum momento todo mundo tem fome, todo mundo perde a paciência, todo mundo fica chateado e depois todo mundo fica feliz. então fica feliz.


all we need is love.


dedicado ao homem de batom, um inglês e nova york.


28.11.09

escrever pra não morrer, escrever pra não surtar, escrever pra desviar a dor. atenção. escrever pra não ficar pregado no chão, feito uma lagartixa apavorada, daquelas que são tão ou mais corajosas que você. escrever pra balançar as estruturas, as escrituras os dogmas que te enfiam goela abaixo. a ponto de te desestruturar. e você não quer gritar! não quer vomitar! por que? tanta coisa pra dizer. tanta coisa, tanta coisa. tanta coisa que tem. que eu nem imagino, que eu lembro, que eu vi. sem saber onde colocar. se tudo tá contido dentro, entre você e o mundo é justamente o espaço que é preciso. pra escapar, achar, habitar. habite-se. repita, repita, repita você até o dia que você se convencer. que a diferença é. que é possível existir além de todas as perguntas. aqui.

o coração bate antes que se tenha certeza.

19.11.09

escrever pra extraviar

escrever pra não explodir

explodir antes de escrever


é preciso ser desfeito

eu preciso ser desfeita

eu preciso achar um motivo

porque tudo


o tempo todo

te puxa

te espanca

te confronta

te pede

pelo amor de deus


pra você ser infeliz

sofre, filha


sofre filha da puta

gruda nesse seu alicerce

escolhe um parede bem boa

um tipo que te divide

atormenta e bendiz

sua maldita e estonteante

segurança


obedece a quem te ama

come pra não mofar

corre pra não murchar


e você, bêbado

de paixão

intensidade

perplexidade

fica aí a expor essa pele

quanta vergonha

tentando em vão sentir

nem que seja alguma coisa

alguma outra coisa

que te faça entender

porque


porque não há motivos que bastem

basta que haja você

***


às demandas atropelantes:

vendam-se sem impostos

ao governo geral

do teu desgoverno

descentralizado e absoluto

absolutuamente nada

resolutamente real

avassaladoramente viva

não importa o que

***


exercícios miméticos pensantes

no que ser a seguir

com você


nosso caos

é uma casa

nossa caso

é nossa casa

de caos

8.11.09

5.11.09

perder o controle

1.11.09

antes de agora, o que significa algum tipo de tempo atrás e a fronteira é sempre tênue, eu não tinha condição de gostar de jazz e me lembro disso com uma nitidez desconcertante. condição no sentido de que era completamente incompetente. e não me refiro aqui a algum tipo de competência contemporânea que te distingue do outro a ponto de atropelá-lo. falo de uma competência que te permite perceber, sentir, viver, escolher, entender. eu não sabia que era um texto, uma história, trocentas nuances, vidas e vozes. conversando, gritando, chorando, rindo, falando. o equilíbrio distante, a delicadeza e violência, arrebatamento, atravessar um linha entre dois pontos, mergulhar no maior dos abismos, a coragem de tentar. fazer. florescer. o mesmo fato que você vê, visto de dentro de outra pessoa. o fato que você não vê, visto de dentro de você, por outra pessoa. o outro fato que você vê, visto de dentro do outro em relação a você. que me vê do outro lado. contra a lei da gravidade, notas que flutuam, que apedrejam, que acariciam, que desnorteiam. à inversão do norte para que não rime com morte. sentir cheiro de terra molhada, olhar a nuvem passar, despertar, dançar, gozar, ver a sombra da nuvem no chão. ver albatroz cruzar o céu. um tomate pra cumprimentar o alface. o roçar do dedo numa pele. na pele. a pele que entranha, elétrica. a única pele que te separa do outro, de outro mundo, de todo mundo, de todo outro. fina película que troca. que toca. o jazz que toca.

31.10.09

ele acredita que o destino mais glorioso do homem é ficar imóvel, sentado no seu grande sofá ou grande poltrona, ou grande carro, ou grande lancha, ou grande casa enquanto manda o assistente providenciar, a secretária ligar, a empregada limpar, a mulher resolver. ele acredita e persegue, como um ideal, o prêmio, o fim, a forra, a conclusão, o futuro. quem não faz sucesso é fracassado e tudo o que quer é um fim de semana, um feriado, uma folga, um reconhecimento, uma compensação. sempre soube, sempre quis e se orgulha em dizer “sacrifiquei minha vida pessoal pra chegar onde cheguei e sei extamente o que estou fazendo. optei por isso”. porque o resto do tempo é tudo um grande sofrimento, uma grande tortura, uma puta e fudida azucrinação. teu colega é incompetente, tua estagiária, burra, teu chefe, arrogante, tua secretária, gostosa, tua mulher, chata. e você não tem a mínima idéia de como eles foram parar ali, ao teu lado, só tem certeza de como você chegou ali, acima deles. e de que não quer largar por hipótese nenhuma tudo que conquistou. teu chefe te fudendo, tua secretária se fudendo, tua mulher fudendo. você entra no seu carro e vai pro shopping. você entra no melhor restaurante e bebe um uísque. você volta pra casa no condomínio. você acorda e vai pro escritório. você sai e corre na academia. você tem um vôo marcado. você aceita e o mundo é assim.


fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga



sem querer ser farsante, tô eu aqui escrevendo, pelo meio da frase, o que tenho que encontrar.

2.9.09

tinha o caráter forjado a tédio. já tinha sido artista, mas disso se lembrava muito pouco, tinha sido há muito tempo. algo que o lembrava a juventude e só. agora gostava mesmo era de ostentar seu cabelo branco a la rc e de se sentar atrás de sua grande mesa de mogno. o momento que mais saboreava era quando as pessoas entravam em sua sala e o viam naquela posição magnânima, soberana. passava dias inteiros esperando por eles e depois passava dias inteiros relembrando sua performance, os olhares, as reações previsíveis, os gestos inseguros da disfarçada sede de seduzir. o desejo sexual tinha sido substituído pelo desejo de poder, mas quanto a isso não se preocupava mais, tinha feito uma boa troca. o que lhe dava tesão mesmo era sucesso, mármore, whisky, puta, convite, vip, artista. tinha claramente passado pro outro lado e isso o agradava, o fazia sentir mais forte. olhava aqueles wannabes todos com um profundo desprezo, mas isso nunca ia admitir.

ela sabia que podia se meter em encrenca entrando ali assim e falando aquelas coisas, só que o que ele não sabia é que pra ela não tinha mais importância.

importância era justamente o que dava força pra ele. ele se sentia muito importante e era cercado por pessoas que também se achavam muito importantes e que por sua vez estavam cercadas de pessoas que queriam muito ser importantes, mas essas eram quase sempre desprezadas.

se você desistisse dela, ele virava nada.

tinha um expediente minucioso que funcionava. foi aprendendo aos poucos, através dos anos, silenciosamente observando a dança das outras vaidades que se exibiam na sua frente. pra isso, abriu mão da sua por muito tempo, mas só pra poder gozar melhor. só pra gozar esse exato momento. e agora gozava, só que nunca por muito tempo. ah, o tempo, ele suspirava. se ao menos eu pudesse comprá-lo. o prazer. precisava sempre do prazer e agora a intervalos menores. evitava receber aqueles por quem pagava. evitava mesmo mencionar seus nomes e sua existência. também não sabia fazer elogios. nunca soube. e também gostava disso. por causa da sua posição e da sua estratégia, arriscava um de vez em quando, mas tinha tanto medo de ser flagrado que acabava formulando sentenças complicadas. alguns podiam ver, eram poucos, mas podiam ver. viam que quando elogiava alguém, uma gosma verde e putrefata se desprendia de sua orelha. os cabelos a la rc serviam pra isso. lembrar da sua juventude, do tempo que era artista, e disfarçar a tal gosma verde que saía quando elogiava. mas agora já quase não fazia mais isso. elogiar. e também nem era preciso. tanta merda nesse mundo, vou elogiar o que. tanta falta de talento, um bando de bostinha querendo brilhar.

a frieza dele vinha da secura, a dela vinha do sangue.

ela não tinha mais nada a perder. ele agora tinha. ele ainda não sabia.

continuou vendendo e comprando. estava cada vez melhor nisso. tinha que admitir, nunca imaginou que ficaria tão rico. não precisava fazer mais nada e nem mesmo a sua equipe incompetente conseguia lhe deter. não se livrava dela porque ainda se sentia bem vendo seu esforço inútil, uma eterna e estúpida vontade de agradar, de ser promovido, de ganhar dinheiro. seus sócios estavam ficando mais velhos, talvez morressem logo, talvez ele agora tomasse conta de tudo… a próxima coisa que compraria seria uma história, certamente estavam precisando de novas histórias por ali e ele, pra variar, seria o único a atentar pra isso e, naturalmente, providenciaria tudo. nunca contava com ninguém, era muito enfadonho. preferia mandar e pronto, limpo e indolor. preciso comprar uma boa história… essa secretária medíocre, vive me interrompendo em momentos importantes, imbecil, é por isso que é secretária, mas é gostosa, muito gostosa. é bom ter secretária gostosa, todo mundo te inveja. vou chamar ela aqui e enfiar a mão dentro da calcinha, sentir sua buceta quente, sua puta. no fundo o que você quer é dinheiro, não é? poder, não é? eu tenho tudo isso. entra. oi, quem? ah, tava marcada? ok, tá certo, pode mandar a moça entrar, obrigada minha querida e por favor não me interrompe, ok, só se eu pedir. ah, providencia pra mim a lista de contatos dos melhores…

31.8.09



onde se pode

escapar pra perto

fissuras, rachaduras e cicatrizes fotografadas por uma câmera vaga

18.8.09

cansei de perguntar pra que eu sirvo. a primeira coisa que te dizem é pra esquecer dos sonhos. a anestesia vem depois.


vai! vai! vai logo esvaziando os bolsos. com sonho já vi vários se machucarem por aqui, é proibido. pode se convencer que nunca vai conseguir, aí entra. criança sonha diferente, mas agora você não é mais criança. e aqui não entra criança. suas células já trocaram mais de 5.000 vezes, então você já mudou inteirinho. é adulto, se liga. tem várias coisas que você vai ter que saber e também tem várias regras. o verbo aqui é tem que. tem que fazer, tem que ir, tem que ter. aqui tem regra e aqui ninguém erra, ou ao menos não admite que erra. isso já é razoável. um mundo de opções. aqui você tem probabilidade, publicidade, chance de ganhar na loto, fim de semana, futuro e esperança! aqui você também quer ordem e progresso, ordem e limpeza. ordem e beleza. tudo muito arrumadinho, tudo muito certinho, você vai ver, você vai gostar, não pensa muito, atravessa essa linha,


definição é uma coisa que as pessoas usam pra se aproximar das coisas

e que nunca as leva lá.

13.8.09

e quem disse que não é pra ocupar espaço e foi eu mesma que de alguma forma me disse achando que ocupar espaço era alguma forma egoísta ou que tirava o espaço de alguém. e porque tanto pensamento pra saber, tanta falação, ensaio, enrolação em vez de vai. vai lá e faz. porque tanta fé na falta. meu deus, você que tá fora e também disso, porque tanta falta de fé. e quem foi afinal esse sujeitinho engomado que te disse que de todos, você, logo você, era o que não era viável? os desvios também podem ser os caminhos e caminho é qualquer coisa que você escolha e percorra e tem muitos e tem aqueles que são os seus. onde você passou esse tempo todo? ou, desculpe, estou sendo intolerante, em quem foi mesmo que você acreditou? tô acreditando agora que é possível ser errado, só porque por aqui não foi nem o certo nem o errado, tem é o que é e eu achei isso muito interessante porque é muito melhor quando você se deixa isso. e apesar de saber,

às vezes você ainda não sabe direito porque tem outros saberes que estão sempre numa fila e aí você acha pior ainda a quantidade de tempo que fica pensando nisso, que é muito e é sobre você mesmo, e aí acha que tá se dando muita importância e pensa que na verdade todo mundo pensa nisso, e você sabe que não pode saber o que pensa o outro muito menos todo mundo, e pensa nisso porque precisa e só faz sentido quando tem ele, o outro, porque ele é a medida de você. e lá vem ele você-eu de novo, mas você também é o outro de um outro, você que é eu e de tanto se debater acaba descobrindo ou pensando, como eu, que a história de ocupar espaço na verdade é das coisas mais bonitas do mundo e pensa porque demorou tanto pra descobrir,

porque tantos poemas mentais, jamais nunca tantos ditos, mas demorar dessa perspectiva não tem a menor importância porque o que você acabou de descobrir é que simplesmente tá vivo e que também pode se sentir vivo não importa o que pensem de você, porque pensar é sempre uma coisa de vivo, mas importando sempre o que você pensa e o que você vive pensando sobre o outro, por causa de você que merece isso e tem isso não importando até mesmo o que quer que você pense. sendo sem medo é a melhor coisa que você pode, o presente que você tem e isso é libertador. o tempo todo a gente correndo e sempre atrás, sabendo que não tá atrás nem na frente, que na verdade tá e é com você, mas sei lá porque você não quer ver, não pode ver. de que tanto é esse medo? com propriedade é você dizendo porra é uma benção, no sentido de muito especial, de presente, você estar presente e a emoção disso é bom que se fale com palavrão porque expressa com força uma coisa de doido e então isso é isso. você tá aqui. entendeu? aqui e agora, já e existindo. e vai fazer o que? ok, eu também vou ter, ele também, ela também, vai ter medo geral, sempre e de vez em quando, mas não tem problema, ninguém aqui tá pagando de novidade, então foda-se o medo, em todos os sentidos.

aí ele diminui de tamanho e com o tempo ele vai ficando pequeno até que você não tem mais. com vontade incomensurável, pode ser poder ser e isso tem importância máxima e também mínima, então você pode e tá liberado e liberada pra fazer o que quiser. sem dúvidas, pode ter dúvidas, mas não quanto a isso que do espaço esse é seu e é de direito, amigo. nasceu, ganhou. mesmo que você não saiba mais nada sobre as circunstâncias desses fatos. pode ser sim. e quando não é você é o que? ser você-eu dá vontade de gritar e encontrar o outro. sem as tais notas introdutórias.

27.7.09

a porra da vida

ou esporro fudido de gozo na boca é outro e essa é a coisa

antes que a vaca tuça é necessário que você engula, essa porra desse medo que te incendeia. porra é bom, fogo também, mas volto a repetir que a porra do medo quando esporra na tua cara, na tua vida, na tua esquina, é ruim. e também não é legal e também não te ajuda e também não te protege. só te fode. fode garotão. mas fode gostoso. e não adianta reclamar que pra vida não há níveis seguros, gato. nem pra você, gata. e aí você olha na rua e vê uma porrada de coisas, mais uma porrada de pessoas, uma porrada de uma pessoa, muita porrada nas pessoas e vê que na verdade não tem verdade nenhuma que lhe caiba ou que lhe explique ou ainda que dê conta de tanta coisa absurda, porque é isso aí, é tudo absurdo pra caralho e nenhum esporro moderno conseguiu mudar isso ainda e aí é essa chuva de porra de um monte de gente querendo amar. e é tudo isso aí. e a singeleza das pessoas se arrumando pra sair pra passear, no domingo, com sua família, bate na tua cara como um soco dos infernos, a parada mais singela do universo, como é que pode isso, triste demais a solidão de cada um, porra. se comunica direito, porra, você aí. é, você, mesmo. você que também sou eu. veja você que, porra, caraca, a gente é frágil pracacete. e eu preciso me incluir nisso também. eu preciso me incluir várias coisas e excluir também. vamo excluindo tudo. tudo aquilo que não é você, veja você. também. um desfile de gente. passando, passando bem na minha frente, bem na minha cara. e eu ainda só consigo pensar que, porra, não importa as escolhas que o outro cara tenha feito ou o jeito que ele tem, teve ou terá, ou a cara que ele ostenta ou o luxo que ele deseja, todo mundo, digo como o todo de todo um mundo, todas as criaturas geneticamente semelhantes e possíveis  que habitam a porra da face dessa terra querem é ser amados, porra! não tem certo, não tem errado, não tem lado. valendo sempre e somente aquilo exatamente que te acontece. que acontece com todo mundo, todo dia, toda hora, todos os segundos da porra desse tempo que eu e você temos o privilégio de simplesmente ter. grandecíssimos filhos de uma grande da puta. o puta orgasmo. a porra da vida.

4.7.09





sei lá

26.6.09


Alinhar ao centro
pro andré